Fado sem ti
Depois de longos anos a sonhar-te… Como um poeta que anima a pena, a desenhar a letra do teu flanco subtil e de forma tão redonda. Aqueles olhos cor de sol quando se põe, sem saber se é tom de terra ou de mel, mas que traz luz aos meus. E via-te assim, sempre nos gestos delicados, a inventar uma dança no cabelo e a ajeitar a franja do vestido. Eras dona da elegância como tirana. E depois de longos anos a sonhar-te… Eis que surges com os teus passos de mulher, os teus olhos de menina e de braço dado com a sorte, que ampara o teu andar do corredor até ao altar. Trazes flores de laranjeira e os teus sonhos aprumados, como manda a tradição. A tua trança que se desenha pelas dunas, a cair onde me exilei. E o desassossego bate ao peito, como uma velha a desesperar por sal para o jantar. Oh, se ao menos soubesses como estou há longos anos a sonhar-te… E eis que surges devagarinho, como quem quer prolongar a eternidade, a sorrir de mansinho, a chegar ao pé de mim. Ness...