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A VIAGEM

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  Entrei pela porta grande.  Talvez enfeitiçada pela música de caixa, daquelas que se abre e salta uma melodia que nos acalma e adormece.   Talvez estivesse à procura de quietude para a alma. Não sei.   O encantamento entrou pela aresta dos olhos, como se a menina em mim ousasse viver a aventura que se demora. Recordo que, quando tinha três anos, o meu pai resgatou-me do alto daquela girafa, como um prodigioso militar que empresta o colo à proteção divina. Já não me recordo o que causou temor ao meu peito, mas creio que ao ensejo tudo o que é novo assusta. Encorajada pela valentia da idade, ainda que trémula, resolvi enfrentar o abismo que a inocência fez emergir. E o burburinho enlaçado nos sorrisos de felicidade; o cheiro a churros acabados de fazer; o deslumbramento das luzes, como estrelas no céu a dourar o meu destino; fizeram-me saltar para o carrossel poético, animado pelo movimento circular. Ah… Quem me dera acontecer um encontro de cinema!  O amor mon...

O sonâmbulo

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  O miúdo sempre foi sonâmbulo.   À conta disso, sufoca-me as noites desde que começara a inverter a lua em sol e a carregar o corpo pela casa com a mente presa, sabe-se lá em que mundo. - O dos sonhos! – replicava sempre que eu iniciava a conversa, contando os episódios das suas viagens noturnas.   Todas as noites fecho a porta aos sonhos, usando a chave do medo. Ainda assim, o garoto teima em deambular pela casa como se o dia não tivesse horas que lhe chegue. E, quase todas as noites, carrego no colo aqueles sonhos puros, embalo as fantasias nos ombros e devolvo o amor ao seu leito, com a coragem depositada na esperança. A Providência zelará pela inocência do petiz.   Certa noite fui buscá-lo ao jardim, a correr ao vento e à chuva, entregue à escuridão solitária, maravilhando-se em êxtase à volta de um balão imaginário. Ignorava a chuva e gritava repetidamente: “Voa que vai alto, ó balão”; “Voa bem alto, ó balão”; “Leva-me contigo para o céu”.   O garoto a...

O homem do espelho

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  Sabes o que me dói? A pele, quando olho ao espelho e miro a figura que se assoma no reflexo do que fui. Olho com olhar fingido, a inventar uma idade que já não tenho. E todas as manhãs encaro, em silêncio, a robustez que já não mora em mim e alegro-me com a mentira. E vou aldrabando o homem que envelhece, resgatando a força viril com mulheres que viajam pela noite, de bar em bar, em aventuras por extenso, como se isso prolongasse o infinito. Apago a amargura num copo. E afogo a verdade num cigarro. Inverto a ordem como um adolescente, para encontrar piada nas ideias. E rio sozinho, como um demente. Alheio à cavalgadura do tempo. Chego a casa como um farrapo, descalço um sapato e depois o outro. Dispo o peso do casaco como se da vida se tratasse e deito-me a teu lado. Já dormes, serena e inocente, sem que os sonhos te revelem o homem que vive para lá do espelho. Encosto o meu corpo ao teu, dou fogo às mãos, desço pelo teu peito e tiro-te do sono profundo. Cerro os de...