O sonâmbulo


 

O miúdo sempre foi sonâmbulo. 

À conta disso, sufoca-me as noites desde que começara a inverter a lua em sol e a carregar o corpo pela casa com a mente presa, sabe-se lá em que mundo.

- O dos sonhos! – replicava sempre que eu iniciava a conversa, contando os episódios das suas viagens noturnas. 

Todas as noites fecho a porta aos sonhos, usando a chave do medo. Ainda assim, o garoto teima em deambular pela casa como se o dia não tivesse horas que lhe chegue. E, quase todas as noites, carrego no colo aqueles sonhos puros, embalo as fantasias nos ombros e devolvo o amor ao seu leito, com a coragem depositada na esperança. A Providência zelará pela inocência do petiz. 

Certa noite fui buscá-lo ao jardim, a correr ao vento e à chuva, entregue à escuridão solitária, maravilhando-se em êxtase à volta de um balão imaginário. Ignorava a chuva e gritava repetidamente: “Voa que vai alto, ó balão”; “Voa bem alto, ó balão”; “Leva-me contigo para o céu”. 

O garoto acordou estonteado. O balão dos seus sonhos estourou. A dor ancorou-se-me no peito ao ritmo das sílabas. O sonho era pesadelo.

À volta as ruínas e a morte. O som aparatoso, no sonho, era um balão que rebentara. Na dura realidade uma bomba que, ao longe, explodia.  

Fui esticar-lhe os lençóis e acalmar-lhe o sono. O que se ouve são balões a voar alto. E os dois, abraçados, escolhemos ser sonâmbulos nas noites em que há balões a estourar no céu, com os ruídos da guerra a soar por trás.

Liliana Mesquita Machado

 

 

 

 

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