NÃO TE QUERO PERDER
“Não te quero perder”. As palavras que sempre te faltaram, atiraste-as todas num só rasgo de desespero. Talhadas com esperança, como se viessem salvar o que já estava morto. Falhaste uma vida toda e, talvez na aflição da perda, ousaste salvar-te num minuto de leitura. Tirei o cartão emaranhado com outras cartas deixadas na caixa do correio. E nem a conta da luz doeu mais do que as tuas palavras tardias. Houve tempo em que pensei que tudo estava em nós. Que eramos rocha firme, pólen e terra a sustentar raiz. E, por longo tempo, deixei-me embalar nesse doce engano. “Não te quero perder”? É tarde. Na hora e na vida. Já te fiz o luto. Extinguiu-se a chama. Já não te procuro antes que seja escuridão. Tudo morre no momento justo. Agora que chegas, já não sou saudade. Nem deserto, nem sequer passado. Agora trago o horizonte na ponta dos dedos. Nasci outra, apesar das ruínas em que abandonaste o meu corpo. Já nem me reconheço. Já não tenho as mãos vazias. Trago pérolas na alma. P...