NÃO TE QUERO PERDER
“Não te quero perder”.
As
palavras que sempre te faltaram, atiraste-as todas num só rasgo de desespero.
Talhadas com esperança, como se viessem salvar o que já estava morto. Falhaste
uma vida toda e, talvez na aflição da perda, ousaste salvar-te num minuto de
leitura. Tirei o cartão emaranhado com outras cartas deixadas na caixa do
correio. E nem a conta da luz doeu mais do que as tuas palavras tardias. Houve
tempo em que pensei que tudo estava em nós. Que eramos rocha firme, pólen e terra
a sustentar raiz. E, por longo tempo, deixei-me embalar nesse doce engano.
“Não te quero perder”?
É tarde. Na hora e na vida. Já te fiz o luto. Extinguiu-se a chama. Já não te procuro antes que seja escuridão. Tudo morre no momento justo. Agora que chegas, já não sou saudade. Nem deserto, nem sequer passado. Agora trago o horizonte na ponta dos dedos. Nasci outra, apesar das ruínas em que abandonaste o meu corpo. Já nem me reconheço. Já não tenho as mãos vazias. Trago pérolas na alma. Perdeste-me no dia em que as tuas costas se voltaram. E, de costas voltadas, percorri sozinha o labirinto displicente para achar uma saída na terra dos canteiros.
Não me quero perder… nunca mais!
Não quero largar a minha mão, nem esquecer-me da minha intensidade. Sou do tamanho da minha alma. Tenho a largura dos meus sonhos. Talvez ontem. Sim, ontem a tua investida, pobre e sacana, teria resgatado o juízo tolo que me tolhia a razão. Ontem, tu eras o primeiro pensamento. O dia inteiro, de hora a hora. Hoje, eu sou o primeiro abraço. O sorriso mais bonito que madruga no canto da andorinha. Hoje eu sou o todo. A razão suprema.

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