O lugar dos perdidos

Não sei como cheguei até aqui.

Talvez descalço, a pisar os gomos da terra e a saborear o trago da chuva.

Talvez estejas perdido.
Num lugar onde tombam os meus braços e desaguam as minhas mãos sem, no entanto, ter dedos que te alcancem.

Sem ti fico manco, a viver no doce engano, desejando que sejas par para mim.

Ando num solavanco, cambaleante, sem rumo e sem dó. Como se sozinho, no orgulho ferido, fosse exaltação da coragem por exibir-me tão confiante, elevando o pé gracioso.

Descalcei-me, simplesmente porque era de noite e, na escuridão, perdi-te o rasto. Não dormi. Subi até ao tornozelo só para buscar a tua sombra e, sabes? Nem isso encontrei. E antes que a meia luz nos cingisse o tacão, agarrei-me ao que havia de ti… a lembrança de seres igual a mim, como são as almas gémeas. E só para aplacar a saudade, fui ao espelho buscar-te as semelhanças. Não resultou. Porque tu, só tu… para trazer flores ao chão que pisas e cor ao corpo em que te ergues. E quanto mais olho para o espelho, mais percebo que estou sem identidade, preciso de um outro para ser eu mesmo. E se, ao menos, tivesse nascido sem ti, não saberia que existias nessa perfeição de quem te calça e te encaixa. De que sozinhos somos o avesso de um pé, mas juntos somos o grau de excelência, como se houvesse sentido para sermos dois.

Não te demores nessa rota solitária e, na volta e meia, quero que saibas que te aguardo. Que espero encontrar-te quando o sol explodir na janela, porque és tu quem faz nascer os dias.

E, num minuto, gasto sola na saudade a lembrar-me dos tempos em que, juntos, palmilhávamos a lua em noites de glória.

Liliana Mesquita Machado

 

 

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