A ESTAÇÃO

 

Cheira-me a pão acabado de fazer.

E a histórias com sabor a bolo, acabado de cozer. E a gemadas batidas com amor. Cheira-me a geleia na bancada a arrefecer. 

 
E a tua infância… qual é o seu sabor?
A dióspiros acabados de colher. A figos pingo de mel, como é o teu dizer. A canela peneirada nas palavras da tua esperança. Hum… a bolinhos de abóbora a enfeitar dias cinzentos. A sonhos trazidos pela gentileza do teu olhar. Ah… e a castanhas assadas com o sal da tua voz.

Leva-me pela mão ao terraço do outono. Vamos ver as folhas a dourar. Mostra-me as tardes demoradas do teu abraço. O pôr do sol no infinito dos teus cabelos. Vamos ser lentas nas conversas do coração. Ajuda-me a chorar a minha primeira desilusão. Ensina-me a cair e levantar. A esconder a dor na luz ténue de um sorriso. Dá-me o teu gesto de elegância. Conta-me o segredo dos dias transparentes. E a sabedoria para a paciência da espera.

És a exaltação das horas luminosas. A minha agitação no vestígio do teu deslumbre. O motivo da minha liberdade. A coragem para seguir fiel à essência da minha viagem. A educadora da minha identidade. És a inspiração para a graciosidade da minha paz. A razão para um caminho sem vestígio de impureza. És a frase repetida no meu pensamento. A lembrança revisitada nas horas de aflição. O livro de receitas nos momentos de inquietação.

Ensinaste-me a ser outono. A amadurecer com imperfeição. E, ainda assim, a achar graça na desventura. A deixar morrer para nascer de novo, ainda que o tempo ameace fugir. A ser criança sem idade, pela vida fora, com os sabores da inocência na memória. A subir a escada da colheita e saborear o doce beijo do amanhã. 

 
És o ritmo da passagem.
A abundância prometida.
O astro mais brilhante da minha estação preferida.  
 
Liliana Mesquita Machado

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