A ESTAÇÃO
Cheira-me a pão acabado de fazer.
E a histórias com sabor a bolo, acabado de cozer. E a gemadas batidas com amor. Cheira-me a geleia na bancada a arrefecer.
Leva-me pela mão ao terraço do outono. Vamos ver as folhas a dourar. Mostra-me as tardes demoradas do teu abraço. O pôr do sol no infinito dos teus cabelos. Vamos ser lentas nas conversas do coração. Ajuda-me a chorar a minha primeira desilusão. Ensina-me a cair e levantar. A esconder a dor na luz ténue de um sorriso. Dá-me o teu gesto de elegância. Conta-me o segredo dos dias transparentes. E a sabedoria para a paciência da espera.
És a exaltação das horas luminosas. A minha agitação no vestígio do teu deslumbre. O motivo da minha liberdade. A coragem para seguir fiel à essência da minha viagem. A educadora da minha identidade. És a inspiração para a graciosidade da minha paz. A razão para um caminho sem vestígio de impureza. És a frase repetida no meu pensamento. A lembrança revisitada nas horas de aflição. O livro de receitas nos momentos de inquietação.
Ensinaste-me a ser outono. A amadurecer com imperfeição. E, ainda assim, a achar graça na desventura. A deixar morrer para nascer de novo, ainda que o tempo ameace fugir. A ser criança sem idade, pela vida fora, com os sabores da inocência na memória. A subir a escada da colheita e saborear o doce beijo do amanhã.

Comentários
Enviar um comentário