A SERRA
É avassalador o silêncio na altitude. Protegida pela vidraça daquele chalé perdido no meio do pico gelado, procuro semelhanças entre a paisagem e a vida. O coração, às vezes, assemelha-se a uma serra no inverno. Coberta de neve, com uma neblina densa a cobrir-lhe o sopé. Rodeado por criaturas uivantes que, esfaimados, escorregam pelos declives em busca de presas. Ao longe, vislumbram-se os reflexos da lua a chapejar nas finas camadas brancas, anunciando uma primavera que há de vir. O meu olhar, perante a tua beleza, recolhe-se como um pastor que se protege do frio. Teme as extensas e frágeis lagoas geladas. Ainda assim, ousado e aventureiro, aconchegas o meu corpo com a manta que trazes nos braços. Pousas o teu rosto no meu ombro e ficas ali, a contemplar as cores vibrantes da minha alma. Então, a sós com a neve e as estrelas, animados pelo estalar da lareira, despimos a noite por inteiro. A manta tomba e revela metade de mim. O teu corpo deita-se no meu. Uma luz rosada derra...