A SERRA
É avassalador o silêncio na altitude.
Protegida pela vidraça daquele chalé perdido no meio do pico gelado, procuro semelhanças entre a paisagem e a vida. O coração, às vezes, assemelha-se a uma serra no inverno. Coberta de neve, com uma neblina densa a cobrir-lhe o sopé. Rodeado por criaturas uivantes que, esfaimados, escorregam pelos declives em busca de presas.
Ao longe, vislumbram-se os reflexos da lua a chapejar nas finas camadas brancas, anunciando uma primavera que há de vir. O meu olhar, perante a tua beleza, recolhe-se como um pastor que se protege do frio. Teme as extensas e frágeis lagoas geladas. Ainda assim, ousado e aventureiro, aconchegas o meu corpo com a manta que trazes nos braços. Pousas o teu rosto no meu ombro e ficas ali, a contemplar as cores vibrantes da minha alma. Então, a sós com a neve e as estrelas, animados pelo estalar da lareira, despimos a noite por inteiro. A manta tomba e revela metade de mim. O teu corpo deita-se no meu. Uma luz rosada derrama-se pelas encostas, cintila e espalha-se pelos teus lábios. Surgem cores matizadas, palhetas de fogo em esplendor, trechos alaranjados e as tuas mão são luz a percorrer o meu corpo até ao despontar da madrugada.
Ali, repousados no gesto do fogo, pensamos na imensidão da serra. É avassalador o silêncio na altitude. Tão mudo que ouço os píncaros do teu coração ritmado. Que um sussurro se transforma em confidência. Frases curtas, de segredo, de surdina, a fazer render o encanto. O momento evoca a poesia. A serra cobre-se de neve. Durmo contigo a noite inteira, dividida entre o sono e o prazer. O teu braço circunda a minha cintura. Recebo um beijo doce pela aurora.

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