O AMOR INVENTADO
Amar é quando já não estamos sós.
Somos dois, mesmo que o outro não saiba. Quando nos tornamos largos e profundos. E falamos com o vazio. E rimos para o nada. E o perfeito é regra. O luar é secreto e interminável. De mãos dadas, passeamos sozinhos junto ao mar. A minha mão na tua, mil vezes o momento entressonhado. Os teus lábios a desfiar pétalas aveludadas que vêm cair, levemente, no meu peito despido. Amo-te da janela dos meus olhos. Oh… quanto mistério. A inundar-me de dentro para fora. A embriagar os meus sentidos. A toldar-me o sonho em miragem. A deleitar-se com a ingenuidade deste outono que ainda agora se inicia.
Para ti acrescentei um dia ao tempo.
Teci
as horas por extenso. Para te amar para além da ausência. Pois só assim se amam
os eternos. E em dias demorados, fecho os olhos para te ver. Amo-te da porta da
minha boca, por onde entra a luz do sol, tão pura, a inundar o pudor dos afortunados.
Ah… pudesse eu não ter limites. Nem vergonha a cingir os meus gestos. Que as
minhas mãos se demoravam na viagem, a percorrer cada trilho do teu corpo, no
fulgor das noites perfumadas. Silenciava a virtude. Roubava-te a paz. Mostrava-te
os astros e as estrelas. E faria do instante a tua memória mais feliz.
Saberás que és amado, enfim…
Perdido
na respiração e enlaçado nos meus braços, onde te recolhes exausto, com o corpo
a tremer de saudade, mas feliz na aventura de sermos um só. A luz recolhe-se e
eu fico a contemplar-te para dentro. E, moldada pela agitação dos corpos,
mergulho as mãos nos teus cabelos. Regressamos ao desassossego das horas. À ternura
vadia. Ao ritmo das ondas a tombar na areia.
Amar é quando já não estamos sós.

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