A ALMA E A CARROÇA

 

A alma pasmada.

Veio ao mundo para coisa pouca a não ser observar. Pasma-se com os silêncios e os ruídos. Com a alegria e a tristeza. Admira-se com o horizonte e espanta-se com os caminhos duros e difíceis. A alma pasmada é ubíqua. Perplexa perante a complexidade da vida, vagueia pelo destino examinando o desenrolar dos dias sem se fazer notar ou sentir. Pasma-se com outras almas que de sonhar acha-as perdidas. Sem vivacidade, parada e recatada, no seu invisível estado de existir, afasta-se dos sonhos porque são amargos. É fácil desprezar o que não conseguimos ter. A alma pasmada morre boquiaberta.

A alma inquieta.

Acorda a terra inteira com o seu desassossego. Inquieta-se com o aroma das flores e a doçura do luar. Vive de ânsias infinitas. E alastra-se na descoberta do mundo. É um pássaro de voos altos que procura respostas para os sobressaltos das horas. Tem a palavra à saída da boca. O pensamento ferve em pouca água. O coração pulsa à velocidade da luz. Tem a expressão de um vulcão prestes a eclodir. Tudo lhe foge da palma da mão. Recalca no peito a insatisfação de existir. Quer mais. Sempre mais. A alma inquieta morre ansiosa.

A alma vazia.

Está no mundo como um fantasma. Enche-se de nada e basta. Não contém coisa alguma. Atormentada. Infeliz. Desconcertada. Mora nela a presunção de ser muito quando, na verdade, é oca. Sem nada para estender ao outro, a não ser um punhado de espinhos. Sem estímulo para sorrir de forma pura e desinteressada. A alma vazia ocupa espaço. E rouba beleza. E apodera-se da luz para ocultar o vazio. Insuportável e ruidosa. A alma vazia é a carroça de Esopo: “é muito fácil saber quando uma carroça está vazia, pelo barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz”.

A alma vazia não morre.

Se nunca chegou a viver!
 
Liliana Mesquita Machado

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