AS ROSAS

 

Observo as coisas abandonadas.
Algumas inanimadas, sem sopro de vida. E, ainda assim, sinto-lhes a dor do abandono. Uma estranha sensação de tristeza por já terem sido luz antes da escuridão. Por saber que já tiveram a sua utilidade e foram descartadas. Algumas adornaram mesas, outras alimentaram sensações temporárias. Foram de serventia e até objeto de felicidade, de tanto que foram desejadas. Extinta a curiosidade e a novidade, sempre tão fugazes, atira-se para longe da vista e acabam, desoladas, num caixote onde se amontoam outros objetos semelhantes e, imagino, que entre eles troquem empatia e experiências de tempos gloriosos em que foram tão desejados ao ponto do sacrifício financeiro.

 

E dá-se a estupidez da vontade de trazer glória ao descartável.
No outro dia, embrulhada na angústia de saber o destino das rosas que me ofereceram, tão belas e vibrantes, adiei-lhes a morte o mais possível. Saibam disto: se no vosso coração mora a vontade de me agradar, não me ofereçam um ramo de flores, ofereçam-me um vaso. Voltando às rosas: dei-lhes água fresca todos os dias. Falei com elas. Pedi-lhes desculpa. Abracei-as com o toque da ponta dos dedos. Cuidei-as. E ia observando como floriam e abriam os seus corações à medida do tempo. Ao fim de duas semanas, percebi que dos seus galhos nasciam pequenos rebentos. Foi, então, que percebi o milagre da vida: o amor. As rosas duraram um mês em plena beleza e os rebentos cresceram fortes, sempre ao som da minha voz e ao toque do meu abraço. Como sou louca por causas perdidas, indaguei a forma de plantar a partir de rosas de corte.

 

Expande-se a tristeza quando o gesto se espelha no trato.
Daí que o abandono das coisas me apoquente. Imagino que gente que descarta e substitui com facilidade, também o aplica às pessoas. Sem misericórdia. Sem peso. Sem consciência. Já teve o seu tempo e a sua serventia.

 

Tanto no ter como no ser, sejam simples.
Tenham pouco e cuidem do pouco que têm.
Cuidem os outros como se cuidam as rosas!  
 
Liliana Mesquita Machado 

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