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NEM SEMPRE SÓ

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  A solidão é um telhado de estrelas. Um copo meio cheio ocupa uma mão, a saudade apodera-se da outra. E, assim, com as mãos cheias de nada, vivo e respiro num mundo que não me pertence. É um sossego inquietante. Uma paz forjada só para trazer à alma a ilusão de felicidade. Às vezes parece que te perco no meio da multidão. E invento uma sombra junto ao areal, só para ouvir a música das ondas a quebrar. A dar ritmo ao silêncio onde me instalei. Por ti ousei ser maior do que sonhei e mais forte do que nasci. Por ti inventei as palavras. Dei voz ao fado e fiz nascer o sol todas as manhãs. Por ti virei o mundo ao contrário e fiz girar o ponteiro no inverso. E pudessem as horas ser de minha posse, que o futuro chamar-se-ia passado e o mundo estaria invertido… e os dois seríamos um a inventar a eternidade. E a ausência seria um vazio sem existência. Um buraco negro perdido no universo. Um nada sem poder para te levar. Deixem-me sequer a esperança de que, no mar, haverá ...

A TEMPESTADE

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  Entreguei-me à solidão para fugir do ruído da humanidade. Aquela réplica estugada de lamentos em oratória de quem quer fazer-se um oprimido dignificado. Há quem me atire as pedras. Quem me julgue egoísta. Quem me classifique com a frieza. Crio a distância, porque entrego a alma ao pó de onde venho. Porque tenho as minhas próprias tempestades. E vivo como um pântano, enterrado em lodo, com a cabeça à superfície a tentar respirar. Eu sei… a vida é um fruto carunchoso. Trago ainda nos ombros o sal que restou das marés revoltosas. Entro em casa e dispo o capote, querendo libertar-me das partículas salgadas e brancas como a neve. Sento-me no cadeirão gasto. Não trago as palavras. Fico ali, em silêncio. Com as paredes a meia luz, a fingir que vivo. E a minha casa tonou-se na minha caverna, o lugar onde estou exilado. Levanto-me só para descer à cave onde guardo o meu tesouro. Alinhadas na horizontal, todas chamam por mim, como se o amor cingisse o vício. Não perco tempo na ...

A VIAGEM

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  E o raio das horas que se atropelam.   Doeram-se-lhe as ansiedades, porque os ponteiros adiantados lembram-lhe que o tempo é escasso. Inês chegou ao aeroporto carregada de malas cheias de sonhos. Olhou as partidas, mas o que viu foi um rosto conhecido.   Estremeceu-lhe a fragilidade.  Lembrou-se que aquele rosto, muitas vezes, a fizera sorrir num tempo que conjuga verbos no passado. Espiou-lhe as pegadas. Nervosa, de olhar atento ao movimento, fez deslizar o corpo até à extensa fila. Segurava hesitante um destino nas mãos, para o mostrar à hospedeira de terra que marcava o ritmo e a extensão da fila. Nova Iorque estava à distância das milhas a pairar sobre o céu. Entrou no avião. Percebeu que o rosto, outrora amado, seguiria viagem com o mesmo destino. O coração deu de si em três ou quatro pulos. Quase que saiu pela boca. Durou alguns segundos. Sentou-se no lugar marcado. Raul não estava perto. Perdeu-lhe o rasto à entrada, sem perceber onde se sentara. Não bas...