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A ESPADA

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E a espada caiu sobre os meus pés. Perfurou a raiz e rasgou a minha dignidade. Há por aí tantos corações cansados, como o meu. A palpitar no desgaste das horas, sem a exaltação da bravura na conquista, consumido entre o passado e o futuro, esquecendo-se que hoje é que vale. Arranquei a espada com as mãos trémulas. Ouvi o assobio impiedoso do metal a roçar a matéria. A dor é tão sonora. Que o grito latejante ecoa para lá das muralhas, onde se esconde a minha razão. Já não sou quem nasci. Sou outra. Trago o fardo do tempo fustigado no rosto. Rotas profundas a marcar a minha pele. Sinais das emoções colocadas na entrega. A espada, a cada passo, trespassa um pedaço de mim. E, no mesmo compasso, arranco-a cada vez mais com precisão. O tempo é mestre. Traz conhecimento para manusear a espada com sabedoria. Empunhar a saliva para selar o golpe. Estancar o gemido à saída dos lábios. É quando a alma suspira exausta, com o corpo a retalho e a face estendida na poeira, que a coragem...

MEMÓRIAS

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  As horas que a torre teima em exaltar… Que eco tão desgostoso que me arranca debaixo da figueira. Trago os pés gastos, porque não tenho sola que conquiste chão, nem vestidos novos para exibir às beatas à porta da igreja, ao domingo. Trago antes o cheiro de pobreza encrostado no tecido roto pelo uso excessivo e já estreado por outras figuras que nem distingo. Sabem o que é ter sonhos? Eu não! Volta e meia lá vou sentindo o gosto, enquanto me debruço a comer figos. Sonho uma ponta de luz que não chega a revelar-se de concretização. E desponta logo a voz maternal com recados a despachar, porque ter 10 anos neste tempo de enganos, é ter idade para lidar com a vida. Com a marmita aquecida e os pés descalços, corro o sopro das horas para chegar a tempo do almoço. Os irmãos precisam de reforço para a consumição das obras. Na volta, rapo os tachos das sobras… que ainda não almocei. Valeu-me os figos a forrar o bucho. Um dia, depois de tanto rapar o tacho, que nada tinha...

O AVESSO

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  O outro lado. A parte que está ao contrário. O reverso. São momentos de caos, em que o mundo está ao contrário. Dias que a nossa compreensão, mesquinha e tacanha, chama de abismo. Esses dias são o outro lado, a parte invertida, cuja existência é ensinar-nos a valorizar o que temos. Porque é nos momentos do avesso que verdadeiramente apreciamos a nossa normalidade.   E se lhe dissesse que o avesso é o lado certo? E de repente tudo faz sentido. Pois, no meio do caos descobrimos o nosso caminho. É quando nos perdemos que nos encontramos. No meio da desordem criamos o desapego à cegueira. Descobrimo-nos mais ricos. Diante dos caminhos escarpados abre-se, perante os nossos olhos, uma nova melodia. Afinal, do outro lado do avesso há abraços que nos confortam, há sonhos a concretizar, há um chão para conquistar. Quando achamos que estamos do lado certo da vida? Entramos no círculo vicioso: correr, trabalhar, comer e dormir. Insistentemente. E quando a vida nos troca as vo...