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QUEBRA-ESQUINAS

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Quebra a lucidez a interrupção sonora de uma chamada.  - Quem é? – pergunto com a voz vacilante e o tom curioso de quem não conhece o número. - Boa tarde, temos um plano de saúde com inúmeras vantagens e... Desligo, sem piedade por quem deseja, apenas, vender-me ilusões ao desbarato. Já o tentaram fazer, aliás, durante uma vida inteira, vender-me ilusões ao desbarato. Acabei por pagar caro o plano, que não era de saúde, mas afligia o coração.    O amor. Esse grande vadio das cidades. Sem poiso definido. Tanto lhe interessa a coroa real de uma imponente estatueta de rua, como o telhado mais degradado de um qualquer edifício devoluto. Sem decoro, empoleira-se no peito macio de uma elegante escultura, abrindo as asas para conquistar espaço e, com a mesma insolência, assenta estadia numa qualquer caleira suja. É bem vagabundo. Em qualquer um dos poisos, não pretende nada mais do que o seu interesse – proteger-se. Do alto, observa tudo o que mexe para bater asas...

ESTÓRIA DA NOITE

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  Já a noite se dilata no universo. Opulenta, enche-se de estrelas, alteia-se e cresce em tamanho. Fixo o olhar no abismo escuro. O sono tarda. O pensamento irrequieto desliza pelas lembranças. É sempre nesta hora tardia que me visita. Leva-me para longínquas paragens. Cerro os olhos. Recolho a inquietude. A noite ri dos meus esforços. O desassossego apodera-se com impiedosa robustez. E eu desisto. Lanço um suspiro pelo ar. A noite apodera-se tão firme, que sou obrigada a escutá-la. Tem um modo tão singular de nos roubar a atenção. Vem, a murmurar de mansinho, ruminar a horas tortas as abóbadas deste sótão vazio. Bebo, como louca, as pérolas que a noite traz. Invade-me a tua imagem poética. A minha alma embriagada alucina. Arde nos meus olhos a chama de uma eterna paixão interrompida. O fulgor das faces rosadas. As palpitações assimétricas do teu colo acetinado. Acende-se, de novo, a candente brasa a reluzir na pupila. Encosto-me carinhosamente ao teu peito. Oh… essa encost...

HARMONIA DO INVERNO

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  A nota predominante desta alma é a ingenuidade. Não há ali o tumultuar da imperfeição sonora, nem o aroma bizarro da imponência. Ela surge elegante, com um semblante tão singelo que transborda nas suas maneiras, como a gentileza no seu olhar. Sem a sumptuosidade dos egos régios, vive a sua vida sem alardes. Esquecida, até, no meio da multidão ávida por atenções. Onde perpassa a altivez de uma suprema figura presunçosa, ela desvia-se, para dar espaço à exposição, enquanto desce, tranquilamente, o seu olhar para a doçura da paisagem. Tem o gosto simples dos dias. E entretém-se entre a gratidão por um raio de sol a invadir o seu rosto e um passeio pelo terraço apinhado de cânticos diversos e entoados pelos tenores mais afinados. A sua ópera a céu aberto. Em noites de espetáculo, deixa-se arrebatar pela magnificência dos lustres, compostos por infinitas pequenas partículas de cristal. Verdadeiras cintilações fuzilando o crepúsculo transparente e distante. Sem esse encanto, se...