ESTÓRIA DA NOITE
Tem um modo tão singular de nos roubar a atenção. Vem, a murmurar de mansinho, ruminar a horas tortas as abóbadas deste sótão vazio. Bebo, como louca, as pérolas que a noite traz. Invade-me a tua imagem poética. A minha alma embriagada alucina. Arde nos meus olhos a chama de uma eterna paixão interrompida. O fulgor das faces rosadas. As palpitações assimétricas do teu colo acetinado. Acende-se, de novo, a candente brasa a reluzir na pupila. Encosto-me carinhosamente ao teu peito. Oh… essa encosta mourisca. Larga, alta, forte. Ah… essa aventura arriscada. Com sorriso voluptuoso, animação galante. Que arrebata no primeiro golpe de vista. As tuas mãos a oferecer doçura perturbadora à minha pele. Os teus lábios a prometer sorrisos à minha boca. O ritmo do teu corpo a garantir malícia aos meus olhos. E é a harmonia da tua voz, sussurrada ao meu ouvido, que dá o golpe final.
Que mecanismo engenhoso te permite usar a noite para me criar tormentos? Que posso eu dizer! Que, sem trégua, sem piedade, sem consciência, vens pela calada, agitar o meu coração. Que passo fugidia pelos dias, aguardando pelo pardejar lento e demorado do encontro. Foi a volubilidade do nosso tempo que transformou em tragédia o sucesso das nossas horas felizes. E eis-me aqui, na luta desigual com o tempo silencioso da noite. Com esse emaranhado de pensamentos que entram por uma frincha, por uma janela entreaberta. E rodopiam pelo quarto, em desespero. Rastejam. Levantam-se. Insinuam-se. Imploram para que os deixe sair. Ei-los a gemer à procura de uma fenda por onde possam escapulir-se e pousar ao luar para descansar da escuridão.

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