QUEBRA-ESQUINAS


Quebra a lucidez a interrupção sonora de uma chamada. 

- Quem é? – pergunto com a voz vacilante e o tom curioso de quem não conhece o número.
- Boa tarde, temos um plano de saúde com inúmeras vantagens e...

Desligo, sem piedade por quem deseja, apenas, vender-me ilusões ao desbarato. Já o tentaram fazer, aliás, durante uma vida inteira, vender-me ilusões ao desbarato. Acabei por pagar caro o plano, que não era de saúde, mas afligia o coração. 

 
O amor.
Esse grande vadio das cidades. Sem poiso definido. Tanto lhe interessa a coroa real de uma imponente estatueta de rua, como o telhado mais degradado de um qualquer edifício devoluto. Sem decoro, empoleira-se no peito macio de uma elegante escultura, abrindo as asas para conquistar espaço e, com a mesma insolência, assenta estadia numa qualquer caleira suja. É bem vagabundo. Em qualquer um dos poisos, não pretende nada mais do que o seu interesse – proteger-se. Do alto, observa tudo o que mexe para bater asas quando a fome aperta. E lá vai debicar os restos atirados à valeta imunda.

Matreiro. Ora se dá genuinamente, como depressa levanta voo quando nos abeiramos demais. Não se deixa conquistar, até mesmo pela mão generosa que lhe dá de comer. Egoísta. Lá do alto, assiste à vida com a ligeireza de quem só pensa na sua. Explora. Poisa, apodera-se e usa sem pudor. Depois de satisfeito, levanta voo ao sentir-se encurralado pelo olhar que o lobriga em flagrante.

Gaudério. Só nas ruas fétidas encontra o prazer sem trabalhos. Vive do burburinho boémio da cidade vazia. Nem se atreve a explorar para lá dos muros onde se empoleira. Conhecer outras paragens. Aventurar-se noutros céus. Fica ali, a parasitar na abundância podre e esquiva. Sem se habituar à ternura, às carícias do sol e sem debandar para onde ele existe.

 
Asas de poiso fixo.
Mesmo depois de voar à volta do mundo, consegue voltar exatamente ao mesmo ninho.
 
Liliana Mesquita Machado

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