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MENDIGAR A SORTE

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  Um desgraçado é desgraçado e ponto! Nele tudo é escasso e esquivo. Vazio e nu. É perda e dano. É mendigo de sorte a dormir ao relento. Parece que, nele, todos os caminhos são enxurros. Burro. Sobretudo, um desgraçado é burro e ponto! Todos os outros dominam a linguagem para pedir sortes ao universo. Ele é ignorante. Tanto tagarela voltado ao céu e nada ganha com aquele desfiar de palavras rotas. É que nem uma escudela de sopa. Ou parte de uma côdea fresca, que o todo já é fortuna. E contenta-se em roer um pedaço de pão recesso tirado da algibeira, poupado de outros ganhos. Cada um de nós carrega, volta e meia, esta alma de rugas dolorosas. Alberga no seu coração o desgraçado de horas amargas. Afogado na lama, com a face na palha, a remoer na escuridão. Na longa espera, crescem as negras barbas, adensando a figura pedinte e desolada. Pede esmola ao universo. Esse ditador da boa ventura que atira migalhas aos inditosos. Que quase dá. Mas logo tira. E até para se ser des...

SAUDADES DE TE AMAR

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  Um homem caminha devagar. Observo a idade em passo lento, atrasado pelo tempo. Arrasta os passos incertos pela calçada da tristeza e do abandono. Mãos cruzadas atrás das costas, sobre a fazenda escura. As minhas cruzam-se sobre o volante, parada na berma, a fazer pausa dos atropelos da agenda e da rotina ofegante. Às vezes preciso de 5 segundos no silêncio. Só para lembrar-me de ti. Da tua presença na minha vida. Volta e meia não tenho certeza de nada. Nem de mim mesma. O homem parou frente ao lago. Sentou a cansada existência num banco de jardim. Imagino-te assim, um dia, após uma jornada demorada, sentado frente ao lago, ansioso por um súbito deslumbre meu na tranquilidade das águas cristalinas. Não lhe vejo o rosto, mas imagino o teu. O sorriso de candura no cravo da boca que guardo na memória. Os olhos doces de quem guarda os sonhos de um destino por cumprir. Monótonos. Lentos. Assim se passam os anos. O homem vai torcendo a bainha do lenço de tecido que traz na mão. ...

DIANTE DE TI

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  Solidão, minha solidão… Esquecido. Exilado. Perdido no silêncio íntimo das ruínas deste templo feito corpo abandonado. Este chão que não tem fim. Estala o tempo. E quebra o silêncio o eco do latejo e do lamento profundo. As portas batem. E a dor deslaça.   A espada cai. Trespassa o meu peito aberto ao teu desígnio. Já não sou quem fui. Sou outro. Sou a face longínqua de um sorriso que se perde na tempestade. Sou as marcas do açoite repetido, doloroso, dilacerante que rasga a minha carne e a expõe ao mundo. Sou os propósitos desta vida. A casa que outrora fui foi destroçada. E escurece o jardim do meu corpo. Senta-se a morte no banco à minha porta. Espera por mim. Paciente e sossegada. Esteve longo tempo ocupada. Deu a mão, um por um, aos habitantes deste refúgio. E tudo o que tenho se transforma em pó, que se desfaz com a brisa. E que frágil é o que possuo. Frágil como as folhas que se convertem em cinza perante o Teu fogo. Frágil como o barro que se desfaz com a queda...