MENDIGAR A SORTE
Um desgraçado é desgraçado e ponto! Nele tudo é escasso e esquivo. Vazio e nu. É perda e dano. É mendigo de sorte a dormir ao relento. Parece que, nele, todos os caminhos são enxurros. Burro. Sobretudo, um desgraçado é burro e ponto! Todos os outros dominam a linguagem para pedir sortes ao universo. Ele é ignorante. Tanto tagarela voltado ao céu e nada ganha com aquele desfiar de palavras rotas. É que nem uma escudela de sopa. Ou parte de uma côdea fresca, que o todo já é fortuna. E contenta-se em roer um pedaço de pão recesso tirado da algibeira, poupado de outros ganhos. Cada um de nós carrega, volta e meia, esta alma de rugas dolorosas. Alberga no seu coração o desgraçado de horas amargas. Afogado na lama, com a face na palha, a remoer na escuridão. Na longa espera, crescem as negras barbas, adensando a figura pedinte e desolada. Pede esmola ao universo. Esse ditador da boa ventura que atira migalhas aos inditosos. Que quase dá. Mas logo tira. E até para se ser des...