SAUDADES DE TE AMAR

 

Um homem caminha devagar.

Observo a idade em passo lento, atrasado pelo tempo. Arrasta os passos incertos pela calçada da tristeza e do abandono. Mãos cruzadas atrás das costas, sobre a fazenda escura. As minhas cruzam-se sobre o volante, parada na berma, a fazer pausa dos atropelos da agenda e da rotina ofegante. Às vezes preciso de 5 segundos no silêncio. Só para lembrar-me de ti. Da tua presença na minha vida. Volta e meia não tenho certeza de nada. Nem de mim mesma.

O homem parou frente ao lago. Sentou a cansada existência num banco de jardim. Imagino-te assim, um dia, após uma jornada demorada, sentado frente ao lago, ansioso por um súbito deslumbre meu na tranquilidade das águas cristalinas. Não lhe vejo o rosto, mas imagino o teu. O sorriso de candura no cravo da boca que guardo na memória. Os olhos doces de quem guarda os sonhos de um destino por cumprir. Monótonos. Lentos. Assim se passam os anos. O homem vai torcendo a bainha do lenço de tecido que traz na mão. Medita, certamente, no passado que ficou por habitar. O tempo é breve e pulsa no estalar dos dedos. Quando chegada a hora, olhar para trás torna-se penoso. Invade-nos uma inquietação de espírito. Aquela réstia de esperança acre, feita de saudade e melancolia. Vai-nos faltando destino. Não há mais tempo a perder!

Eu espero-te no silêncio e no mistério das noites que estão por vir. Como uma apaixonada, impaciente pela sede de um beijo prometido. Errei de porta em porta e de hora a hora. Errei quando escapei de fininho, na oportunidade discreta para evitar o soluçante fado do apregoado abandono. E, por fim, com o coração tolhido pelo medo, aqui chegada e com as mãos cruzadas sobre o volante, percebo que conduzi a vida até ao deserto. 

 
O homem levanta o rosto.
Guarda o lenço de tecido num dos bolsos e estende a mão ao vazio.
Dá dois passos e avança na direção da sua amada.
Para trás abandona o corpo inanimado no chão.
 
Liliana Mesquita Machado

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