DIANTE DE TI
Solidão,
minha solidão…
Esquecido.
Exilado. Perdido no silêncio íntimo das ruínas deste templo feito corpo
abandonado. Este chão que não tem fim. Estala o tempo. E quebra o silêncio o
eco do latejo e do lamento profundo. As portas batem. E a dor deslaça. A espada cai. Trespassa o meu peito aberto ao
teu desígnio. Já não sou quem fui. Sou outro. Sou a face longínqua de um
sorriso que se perde na tempestade. Sou as marcas do açoite repetido, doloroso,
dilacerante que rasga a minha carne e a expõe ao mundo. Sou os propósitos desta
vida.
A casa que outrora fui foi destroçada. E escurece o jardim do meu corpo. Senta-se a morte no banco à minha porta. Espera por mim. Paciente e sossegada. Esteve longo tempo ocupada. Deu a mão, um por um, aos habitantes deste refúgio. E tudo o que tenho se transforma em pó, que se desfaz com a brisa. E que frágil é o que possuo. Frágil como as folhas que se convertem em cinza perante o Teu fogo. Frágil como o barro que se desfaz com a queda. Tão frágil como o cimento que se desgasta com tempo.
Gritais
que sou louco, na exaltação das vossas horas vazias. Enquanto eu me levanto
para descer à cave mais profunda da minha existência. Vós perdeis tempo a
encontrar o culpado da vossa desgraça medíocre. E… no alto do vosso drama,
clamais furiosos: “Oh Deus que me abandonaste”. E arrancais das vossas
entranhas a expiação de todos os vossos pecados. Sois feitos de lamúria. Matéria
a gemer para o útero da terra. Apesar da minha ruína, em mim tudo renasce. Vós
olhais à superfície. Os vossos olhos são ébrios de destruição. Os meus são de
horizonte. Ainda que perante os raios de frio a trespassar os fios dos meus
cabelos. Mesmo perante os amargos ventos que atravessam o meu rosto perdido.
Neste terror de viver, já percorri os corredores da penumbra. Suplicante e exausto. Fui abandonado no lodo. Caminhei entre o tumulto e a aflição. Despi todas as vestes. Separei-me das minhas máscaras. Para ficar sozinho diante de Ti. E, perante o silêncio… no vazio… diante do nada, pude ver o esplendor do Teu rosto.

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