MENDIGAR A SORTE
Um desgraçado é desgraçado e ponto!
Nele tudo é escasso e esquivo. Vazio e nu. É perda e dano. É mendigo de sorte a dormir ao relento. Parece que, nele, todos os caminhos são enxurros.
Burro. Sobretudo, um desgraçado é burro e ponto!
Todos os outros dominam a linguagem para pedir sortes ao universo. Ele é ignorante. Tanto tagarela voltado ao céu e nada ganha com aquele desfiar de palavras rotas. É que nem uma escudela de sopa. Ou parte de uma côdea fresca, que o todo já é fortuna. E contenta-se em roer um pedaço de pão recesso tirado da algibeira, poupado de outros ganhos.
Cada um de nós carrega, volta e meia, esta alma de rugas dolorosas. Alberga no seu coração o desgraçado de horas amargas. Afogado na lama, com a face na palha, a remoer na escuridão. Na longa espera, crescem as negras barbas, adensando a figura pedinte e desolada. Pede esmola ao universo. Esse ditador da boa ventura que atira migalhas aos inditosos. Que quase dá. Mas logo tira. E até para se ser desgraçado é preciso sorte. Antes ser um mendigo da estação quente do que um mendigo de inverno. No verão, a miséria pesa menos!
Um desgraçado não cruza as mãos perante a lide. Traz talento na arte e domina a condição. Mas é desgraçado e ponto! Não se eleva a extensão dos seus feitos. É invisível, não se inflama. Fica perdido entre as montanhas rançosas da vida. Tem alma de casebre abandonado com telhas destroçadas por onde entra o luar frio. A luz, quando invade, é só para dar visibilidade às teias de aranha que adorna o pobre. E, sentado à porta desta desventura, medita sobre como poderá vencer-se a si mesmo. Um desgraçado tem falta de tudo, mas nunca de vontade. Tem persistência. Na falta de vento, salta para o rio e empurra o barco sozinho. É alma ossuda a inclinar-se para a terra, a mãe que dá colo e aconchego, que faz germinar e crescer.
A única esperança, afinal!
Liliana Mesquita Machado

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