A VIAGEM

 

Entrei pela porta grande. 

Talvez enfeitiçada pela música de caixa, daquelas que se abre e salta uma melodia que nos acalma e adormece. 

Talvez estivesse à procura de quietude para a alma. Não sei. 

O encantamento entrou pela aresta dos olhos, como se a menina em mim ousasse viver a aventura que se demora. Recordo que, quando tinha três anos, o meu pai resgatou-me do alto daquela girafa, como um prodigioso militar que empresta o colo à proteção divina. Já não me recordo o que causou temor ao meu peito, mas creio que ao ensejo tudo o que é novo assusta.

Encorajada pela valentia da idade, ainda que trémula, resolvi enfrentar o abismo que a inocência fez emergir. E o burburinho enlaçado nos sorrisos de felicidade; o cheiro a churros acabados de fazer; o deslumbramento das luzes, como estrelas no céu a dourar o meu destino; fizeram-me saltar para o carrossel poético, animado pelo movimento circular.

Ah… Quem me dera acontecer um encontro de cinema! 

O amor montado num cavalo branco, mesmo de madeira… que o coração não é esquisito. A dançar comigo o mesmo volteio, com a música de caixa a adonisar o momento.

Perdida no meu próprio delírio, percebi a semelhança à vida. Andamos num rodopio, a sonhar com o próprio destino, sem audácia para subir à roda e reclamar o cavalo branco. Ali, então, veio-me à memória o temor de menina. Que me fugissem os sonhos com a velocidade da máquina que gira sem parar. Que não houvesse pausa para ganhar fôlego durante a aventura. Que existir é como estar num carrossel: a rodar contra o tempo, a voar livre a favor do vento e, ainda assim, desejar que a jornada seja infinita. É sentir borboletas no estômago ao ritmo dos altos e baixos do desassossego. É abrir a alma à viagem, mil vezes adiada pelo medo.

E, com as pernas ainda a vacilar, saí pela porta grande decidida a viver.

Liliana Mesquita Machado

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