AMOR À SUPERFÍCIE
Às vezes esquecemos o que é viver o amor.
Atirados às paixões, lançados ao apego da atração, agarrados à superfície, somos criaturas em busca do equilíbrio. Ávidos de conquista, sedentos por um corpo que encerra em si a alma gémea. Crentes de que nos falta uma metade. Falta-nos o dom para criar. A criatividade para desenhar o amor como arte de rua. Espalhar cor nas paredes. Trazer alegria aos muros. Dar forma à pedra.
O amor à superfície desgasta-se como roupa barata. Dura o tempo necessário para satisfazer a vontade pela novidade. Depois disso, estamos todos cansados de olhar ao espelho e ver sempre o mesmo vestido. Queremos algo mais excitante. Que nos devolva o esplendor. Que renove o brilho no olhar. Que arranque suspiros… ainda que por breves instantes. Gostamos é do amor que dá vertigens. Hum… aquele friozinho de medo perante a queda. A adrenalina do vazio debaixo dos pés. O que nos envolve e seduz é o perigo. Raramente amamos a pessoa, mas a possibilidade. O que o outro nos pode oferecer. Seja a aventura ou o perigo. Seja a estabilidade ou a segurança. Projetamos no outro o que buscamos em nós. E tornamos a nossa existência insustentável. Porque o amor à superfície é como poeira que voa para longe na primeira rajada de vento. É frágil. Quebra-se a ilusão ao mínimo toque. É fugaz.
O amor faz doer, dói sempre. Porque para lá da superfície está a entrega e o compromisso. O amor tem muitas camadas. Não é carnal nem erótico. É tão somente um bem querer. E é quando queremos bem que nos dói até às entranhas este desassossego. É aí, nesse ponto crítico, que descobrimos o amor.

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