O TEU CASTELO


Um Castelo de areia… dura apenas uma maré.
É varrido por uma onda. É levado pela espuma da vaidade. As suas paredes temperadas, frágeis como sal, brilham à luz do sol e perdem o encanto com a noite. A tempestade varre e derruba as altas torres revestidas por finas camadas douradas. E morre… efémero, sem vida, sem amor e sem fé. 
 
Um Castelo de pedra é frio e sombrio.
Adornado com celas, correntes e espadas, impõe a sua lei…afugenta a liberdade. Cada seixo é um sonho quieto impedido de existir. Um castelo de pedra não alcança a aurora, não tem luz, nem calor… não tem primavera… vive imerso no nevoeiro, banhado pelas chuvas ácidas do Inverno. As suas paredes são precipícios onde se suicidam as fantasias. 
 
Um castelo de barro é moldado pelas lágrimas do oleiro.
Ergue-se à sombra das mãos calejadas pela humildade e serventes a um rei ambicioso e egocêntrico. Um castelo de barro quebra com os gritos mudos da aflição de um reino em desventura. Não há oleiro capaz de moldar argila dura, como o coração de um rei. Só o tempo, esse capataz da morte, faz acordar da loucura esse soberano impuro e cruel.
 
Um Castelo de palavras tem os lábios como janelas.
Espreitam atrevidas, ávidas por se lançarem no mundo como sementes. Mas este palácio é carcereiro. E as palavras, feito ave numa gaiola, não conseguem abrir as asas e voar. Impera o silêncio na masmorra deste castelo. 
 
Um castelo de estrelas é habitado pela falsa nobreza.
Tem muralhas quebradiças que tombam com o sopro da verdade. A sua grandeza alicia o ambicioso, comove o inseguro e atrai o deslumbrado. Feito de glória fictícia, é governado por um coração que sorri com aparência e transborda a luxúria. Enormes fendas denunciam a perfeição frágil e decadente. 
 
Ah… rei louco que um dia faço cair as tuas máscaras! 
Imperador que manda e desmanda sem sabedoria. Ladrão da verdade e dos sonhos.

O castelo é o orgulho de um coração soberano, mas quando construído em terreno frágil, com a tormenta, sacode e cai. Não há alquimia que abafe a voz do coração, nem feitiço que o obrigue a amar. Mas quem ousar desviar o Sol Poente do seu destino, poderá sentir o céu derrocar nas suas cabeças e será obrigado a viver no meio das sombras.

Bem-vindo ao Castelo Desencantado… 

 Liliana Mesquita Machado

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