O CAMINHO A TEU LADO

 

De olhos fechados perante a força da natureza.

O cabelo, indomável, esvoaçava com a força de mil assobios. O corpo, imóvel, baloiçava o ritmo dos afortunados. O silêncio imperava. De olhos fechados, permaneci ali, a contemplar para dentro. A vida é sacana nas mais diversas formas. É quando o sonho começa a florir, que os ventos sopram rajadas enfurecidas, quebrando as primeiras pétalas da alma. 


Vi-te, ainda de olhos fechados.
Os teus lábios não pronunciaram uma única palavra. Sorriram apenas. Os teus olhos, doces como amêndoas, cantaram a triste melodia da paixão. Perdição. Pronunciei em pensamento. Sabia que, a partir dali, não haveria paz, morreria todas as manhãs por não acordar a teu lado. Estancava ali, perante a tua presença, a candura inviolada do sossego. E, por todos os pastos em volta do caminho, entoava a velha melopeia de lamentos e presságios. Trova arrastada, plangente. O destino pregou-me a mais antiga das partidas. Colocou-me diante de ti. Arrancou-me da quietação. E o coração passou a viver fora do peito, frágil, de fácil assalto, nas tuas mãos… para sempre.

E, em cada trilho, propaga-se o sonho. No lendário caminho da vida vim descobrir-te. À tua passagem, os sobreiros e os carvalhos fazem vénia. As flores ajoelham-se em insondável mistério. Segredam, entre si, o poder da tua presença. A fantástica luz que avança do poente traz-me a tua imagem. Tão sedutora como soberana. Sem indecisão, o meu coração cede. Não protesta, nem se desculpa. Levanta-se do fundo da contemplação e foge-me das mãos para pousar nas tuas. Solta-se da impertinente anemia do sossego e da tristeza. Liberta-se do seu batimento retraído e reconhece-te como invencível desejo de vida nova. Por fim, rende-se à anunciada apoteose no dorso das tuas encostas.  

O álamo-prateado assiste à descida vertiginosa pela arruinada escadaria. Pisava as pedras soltas e frágeis, em direção à espuma das horas, de olhos alongados pela convicção de felicidade. As nossas mãos tocam-se, os gomos dos dedos germinam-se. Os nossos olhos adensam-se pela alma.

O caminho, a partir dali, nunca mais se fez sozinho.
E alongou-se, tornou-se extenso… infinito. 
 
Liliana Mesquita Machado

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