SABER DE TI

 

Acordo para o movimento sinuoso de uma manhã serena.

Mal um pé despontou fora da porta e ainda o outro, mais tímido, não tivera tempo de se aventurar, quando o carteiro, enfardado no colete, me apontou ao nariz a tua carta. Tão pesada de melancolia. Trespassada na saudade. Volto a meter o pé dentro da porta. Rasgo o envelope. Salvaguardo o remetente. A primeira palavra tem sabor a ti. Soa a doçura. O meu pensamento precipita-se a procurar-te nessa rua imaginada, lá onde moras.

Vislumbro-te sentado à tua mesa, na tua sala sombria, a escrever à luz fina a tua romântica melancolia. As tuas palavras amorosas libertam-se, finalmente, do claustro silencioso, onde entoa em dias cinzentos a plangente saudade. Tu foste, irremediavelmente, resvalando nessa tristeza. Nada há mais, nessa sala vazia, do que a lembrança do contorno dos meus olhos. Entregas o espírito à inquietação meditativa. Não admira, portanto, que os teus pensamentos sejam pesarosos, pois se tudo se alia e concilia para deprimir. Não me olhes à luz da lembrança. Não te adenses na inércia. Sacode a cadeira. Escreve com ímpeto.

Sei que vais recordar-me comovido. Ora com um sorriso, ora com uma lágrima. Que vais sair pela porta, descer vagaroso a rua. O vagar dos teus passos dita o tempo que te perdes na memória. Entras no café. Pedes algo que te ajude a esquecer. Levaste no bolso este papel. Pedes ao garçon uma caneta. Queres terminar o que começaste. Deixaste que uma pequena marca do teu velho whisky denunciasse a tua jornada. Queres que te siga quando te ler. Enquanto te deixas embeber de lamento. E, cerrando os olhos, ouves os sorrisos que circulam na tua mente, como se ressoassem através de inúmeros tubos acústicos invisíveis.

Encorajado pelo sedutor sussurro. Animado pela voz tentadora e imoral… colocas o papel sobre o balcão e escreves apenas:

“Para sempre teu. Para sempre minha.”

 Liliana Mesquita Machado

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