A INVISIBILIDADE
A invisibilidade é um dom.
Não sei se nasci ou se me tornei invisível. Não é que seja inexistente para o mundo, sou é uma fina camada, muito ténue, esbatida… transparente. Sou feita de contradição. A minha atuação na vida é intensa e arrebatadora, mas sem fogo de artifício. Sou totalmente consciente de toda a minha graça, beleza e ternura. Assim como conheço bem as minhas fraquezas e defeitos. Os meus erros e as minhas desgraças. Vivo empenhada em moldar as fraquezas em forças, corrigir os meus erros, trabalhar os meus defeitos e aceitar as minhas desgraças como parte da lição que devo levar para a vida.
Isto torna-me invisível.
Faz de mim a única protagonista da minha vida. Possibilita-me desfrutar da viagem, gozar de cada momento e, de forma pura e original, existir em plenitude. Sou o azul desmaiado no céu do outono. O vento a pairar de mansinho junto ao mar. A luz do entardecer. O aroma das flores aveludadas. Sou o rosto de todas as mulheres a meio do caminho. Permito-me ser imperfeita. O primeiro sinal de felicidade. Permito-me gostar de mim sem procurar, ansiosamente, corresponder às expectativas dos outros.
A invisibilidade é um dom.
Quando procuro o meu reflexo, ouço a música flutuante da água que cai e embala os sonhos. Vejo o murmúrio, a solidão ambiente, o quieto movimento da vida a acontecer. E orgulho-me do caminho percorrido com serenidade. Não preciso de sedas, nem de pérolas. Nem do zumbido frenético que anuncia a minha chegada. Dispenso as atenções e os julgamentos a perscrutar cada vestígio do que sou e do que fui. Reconheço o valor sem aplausos, sem plateia a quem agradar. Não espero a recompensa, nem o despertar da glória.

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