O SORRISO DA VELHA INFÂNCIA

Há dias em que o sol se atrapalha.

Perde-se entre as montanhas brancas que brincam no céu. Desorienta-se na órbita e confunde-se na rota. Nesses dias, eu aproveito para regressar à minha infância. Resgatar o meu sorriso. Ficar recolhida a ouvir, surpresa, a sonoridade genuína da minha gargalhada. Percebo que este sorriso, há muito, abandonara os meus lábios onde, por tanto tempo, brincara inocente e desajeitado. Era este sorriso livre e alegre que, em tardes sombrias, afastava a tristeza do meu coração. Por isso o resgato nos dias em que o sol se baralha!

Sentindo o meu sorriso, os meus lábios tornam-se frescos como amoras acabadas de colher. E abrem-se ao mundo como rosas perfumadas. Espantam os insultos, silaba a silaba, com beijos demorados. O meu sorriso surge a quebrar a melodia do silêncio. Afugenta os terrores da agonia. E é na hora mais sombria que ele não me abandona. Agarra-se aos meus lábios em tamanha apoteose, a subjugar o pensamento pesaroso, coroando triunfante o semblante do meu rosto. Nas horas refletidas e magoadas vem socorrer-me do velho demente, e apontar para as coisas belas deste mundo. E não me deixa quebrar!  

 
Um dia pensei que o sol morrera.
Estava esquecida de mim e da vida. E, curvada sobre mim mesma, com o peso da chuva que brotava das nascentes, vi passar de esguelha o meu sorriso de menina. Ralhou-me pela boca breve. Agora tão madura, fechada e fingida. Estava saudoso de mim. Procurou-me pela alma, incessante e cansado. Julgou-me perdida pela noite fora. Pedi-lhe que voltasse aos meus lábios cerrados. E, em boa hora, veio resgatar-me e devolver-me à vida.
 
O meu sorriso firmou de ternura. Pintou a minha boca de azul-turquesa. Deu à minha alma a graça pura e aos meus olhos os seus mistérios.
E o sol nunca mais se desorientou! 
 
Liliana Mesquita Machado


 

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