À TUA ESPERA
Foi buscar-te a minha saudade.
No sonho que desfaz o
tempo e o espaço. E o teu rosto surgiu no vazio sereno. As tuas mãos, nítidas
como a pureza da água. Doces como os olhos que se enternecem ao cair sobre mim.
E o teu sorriso preenche a noite caiada. É na dimensão sossegada, a hora do
nosso encontro. Tantas vezes acontece e nunca proferimos uma palavra. Dilatamos
o abraço sem a espessura dos corpos. É o sentimento que se alonga ao peito. E
vou procurar-te ao lugar que conheço. Onde me deixaste antes da tua última
viagem. É a grandeza das almas a existir no desencontro da jornada. Ama-se
através da humanidade. Antes e depois de existir. Sem tempo para se
materializar. O destino traçou-nos uma linha. Eu, de um lado, a viver
solitária. Tu, do outro lado, à minha espera.
Vieste na quietude das horas.
Com a promessa de que a
saudade habita na eternidade. E, inspirada pelo relento nostálgico, ousei
cruzar os umbrais e roubar a chave da portada. Fiz a viagem pelos retratos.
Recordei a tua beleza prematura. O teu encanto que acometeu de súbito o meu
coração infante. E regressei aos sonhos de menina. Com as mãos pousadas sobre
os joelhos. O coração acanhado. As maçãs do rosto a corar de elogio. Quieta.
Muda. Com o desassossego ao rubro. E as aspirações de um amor para sempre. E,
desde então, o meu coração continua a bater entre o céu e a terra. Como se o
tempo fosse um átomo. E, um dia, confiada à beleza da eternidade poderei confessar-te
o meu primeiro amor.
Levo-te na torrente dos rios que correm.
Espero desaguar no teu
peito, um dia. Quem sabe a hora certa? Resta-nos o encontro na dimensão para
nós inventada. A dádiva de quem nos baralhou o destino.
Adeus, que do tempo fez-se a espuma!
Liliana Mesquita Machado

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