O TEU RIO

 

Encontra o teu rio.

Alguém que te conduza a jusante. Ora na fúria ora na leveza das águas. Alguém que saiba desaguar. Que conheça os leitos. Que seja nascente e cresça no caminho até à foz. Que seja um puro espaço de infinita liberdade. Que te carregue apaixonadamente até ao lugar onde as ondas tombam. E, depois disso, se torne a tua praia, só para assistir à tua grandeza e sentir-se parte do todo. Alguém que te protege na viagem. Que é a margem onde descansas após as horas percorridas no meandro. Que te guarda na profundidade onde espelha o luar. E tu vais, de mão dada, seguindo a voz do vento e do mar que te chama.  

Quando estiveres sem fôlego, vem respirar. Mas continua a correr ao lado de quem te acolhe no seu leito. De quem te faz sentir única e especial. De quem existe com a alegria singular de te levar no abraço. Que seca na tua ausência. Que bebe dos teus olhos e vive através de ti. Permite-lhe a glória e o esplendor de ser parte da tua viagem. Sê a luz do entardecer que se propaga e atinge a superfície. Dá-lhe o teu brilho. Ama-o em transparência, de céu aberto. Na abundância das paisagens. Na nostalgia das marés e com a inquietação do infinito. Mas ama-o com verdade. Porque ele é o teu rio.  

Quando, enfim, o teu fim estiver próximo e a foz se avizinha para a tua conquista, olharás com substância amorosa para os braços que te conduziram ali. Que sem ti ele não faria o caminho. Tu és o propósito. O mistério da viagem. Sem ti, não saberia de onde vem e nem para onde segue. Sem curso, sem água doce. A sua existência seria um vazio sem relevo, sem clima ou vegetação.

Então, dirás com os olhos humedecidos:

O teu coração foi o meu barco!
 
Liliana Mesquita Machado

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