AGUARDO-TE...

 

Aguardo-te devagarinho.
Não tenhas pressa de roubar a minha paz. Demora-te pela noite, com outras vozes intimamente sussurradas. Enche-te de mundo antes de chegares até mim. Vai ser aventura exausta e plangente. Dá voz e liberdade à melodia vibrante da tua boémia inquietação. Ascende à espiral do fulgor decadente. Não deixes que te roubem a ternura passageira. Nem regresses sem um beijo inflamado. Encanta-te com a beleza postiça e artificial, e abraça a cintura adelgaçada. Perde-te nos quartos com as paredes a desmaiar, onde entra a meia luz por uma brecha de emoção. Faz a tua estrada e enche-te de memórias. Quero-te pleno na hora da chegada.

Carrega a história na beleza dos teus ombros e cobre de afeto a nudez do teu corpo. Não te prives da abundante perfeição. Chegará, talvez, o momento do desencanto. Chora a tua desilusão e recolhe-te ferido até poderes voar noutro céu. Aí, aprenderás que há uma lição em cada obstáculo; que a vida é mais do que o superficial. Que aquilo que tem valor faz doer, mas é mais intenso. Que o amor é mais do que um corpo. Que nem todos os quartos são escuros e vazios. Que há colos em forma de coração e abraços com sabor a mar. Que os dias leves podem trazer emoção. Que o mistério está nos olhos que vivem fora de ti. O medo invadir-te-á, certamente. Porque te estranha este espaço desconhecido.

Aguardo-te devagarinho.

Quando findar a tua odisseia, e for de brisa o teu olhar e sereno o teu propósito. Não te quero pela metade, nem é pouca a minha ambição. Abraça-me quando te souberes digno, quando for pura a tua face e lúcida a tua escolha. Quando, enfim, me reconheceres num beijo prometido. E iremos juntos, sem bagagem, embalados pelo destino, percorrer os dias à nossa feição.

Colhendo a luz e a sorte,

Que o universo nos deixou!
 
Liliana Mesquita Machado

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