AMOR URGENTE
Amor áspero e espinhoso.
Aquele
com que me brindas ao fim da tarde. Secretos, dos lábios até às raízes, os beijos
soam como cristal, chuva ou tiro de canhão. Queremos os dois este fogo vedado ao
silêncio, mas fogem-te os meus passos, porque é louca esta paixão. A tua mão inquieta
voa pelo aroma selvagem das roseiras a florir. Trazes-me o desassossego e o
arrepio da voz, ofegante entre as finas camadas da noite. Até te provar, vou
adiando o pecado de te amar dessa forma imperfeita, sustentando a pureza do
corpo e da alma. Mas é a mente que tomas de assalto. Entras sem licença,
trazendo a proposta de um beijo a arder nas tuas veias. E é nesse espaço
sombrio que cedo ao teu propósito. Já tua, repouso o sono nos teus braços.
Amor silvestre e espontâneo.
Aquele
com que me desatinas a horas tortas. De olhos fechados, já perdida entre os
sulcos do teu corpo, avolumam-se as carícias sobre o caos. A loucura é a casa
do amor urgente. Que profunda doçura! Que tamanha suavidade! E a ponta dos teus
dedos vai descobrindo um novo território, ávido por se deixar conquistar. És a
manhã cheia de tempestade. Chegas sem aviso, irrompes pelo meu peito,
desalinhas os meus cabelos e cruzas o meu caminho deixando o rasto de
substância sem peso. És a força do vento pulsando sobre o silêncio apaixonado. Teus
olhos profundos, onde se adensam os meus pecados, se perdem as minhas ilusões e
se desnuda o meu corpo, são a razão da minha emboscada.
Subitamente, o vento geme à minha porta.
A
minha espera morde a tua boca. Não fosses tu o derradeiro grito a enrolar-se na
minha cintura e a acostumar-se à minha alma selvagem. Tanta paixão agarrada ao
corpo que o coração submerge do abismo em que se encontra.
E aqui despe-se a noite!
Liliana Mesquita Machado

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