AMOR SINGULAR

 

Ave rara que habita em mim.

Tenho saudade de estremecer e corar. De te procurar pelo recanto dos olhos e dissimular que não te quero. Corre-me a nostalgia das mãos inquietas que adiam tocar a ternura por um instante. Absorvo o teu perfil até à exaustão, para admirar-te na íntima tranquilidade do silêncio. Sem plateia. Sem medo. Sem julgamento. Só os dois num imenso espaço vazio. E adio-me no sono que me traz a sabedoria das palavras para te explicar as coisas do coração. Pois mal desponta um raio de sol e torna-se escasso o vocabulário para expressar este afeto.

Diante de ti sou um louco perante o abismo.

Os meus olhos beijam. A minha boca observa. Troco o nome aos astros e atrapalho-me na verbalização. As mãos destilam o êxtase, pesado e quente, de quem se maravilhou na tua presença. A ânsia faz aflorar a cor rosada ao rosto. Treme a voz nos gestos inquietos. Tolhem-me a razão os instantes de encantamento. Cerram-se os dentes e calam-se os impulsos. Sinto-me despida e exposta. Aterroriza-me o segredo a descoberto. Tudo à minha volta é tumulto e ruído. Denuncio-me assim, tão frágil e puramente, que só um tolo não adivinha o que mora em mim.

Possuída e suspensa entre abraçar e fugir.

Cavo um buraco profundo para ocultar este pudor. Esquivo-me à sorte. E regresso a casa com o sonho entre os ombros. Ferida no orgulho. Vencida em combate. Por mim mesma exilada. Na concha recolhida, sem tempo nem retorno. Vigilante. Não fosse a oportunidade suceder duas vezes à mesma porta. Valha-me a palavra noturna que, sabiamente, escolhe a sílaba certa para te cantar ao ouvido.

Amor singular.

Que traz poesia aos olhos e me faz, tão docemente, regressar à mocidade.
Fica para além do tempo.
E abraça as coisas que em mim estremecem! 
 
Liliana Mesquita Machado

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