AMAR NO PONTO FINAL

 

O amor chega no fim da linha.

No entretanto, confundem-te as borboletas e a beleza dos frutos verdes. Os olhos distraem-se na abundância das linhas curvas e perfeitas. Perdem-se na noção das horas. E sonham abertos para a possibilidade das noites eternas. Seduz-te a vaidade de um decote profundo. As pernas altas e esguias em compasso de dança. Os lábios suculentos como amoras. De tom encarnado a trazer-te a lembrança de um beijo ofegante. Corta-te a respiração. Palpita no peito o desejo de morder um só pedaço que seja. E conheces o amor pelo suspiro que provoca. Pelo corpo em chamas.

Amar cedo é ter um livro na mão sem saber ler.

A beleza da capa atrai a vontade para tocar as páginas. Mas o impulso impede o todo. Há mais para além da capa. Há todo um mistério a descobrir em cada letra. Não te limites à superficialidade. Não encontras um final feliz no fôlego de um parágrafo. É preciso entrar no livro e viver a história. E, página a página, descobrir a extensão do enigma. É preciso tempo e dedicação. Compromisso para voltar às páginas e despontar um novo encanto. E, ao descer da pálpebra, resistir ao adormecer.

O amor chega no fim da linha.

Quando o peso da luz desfigura o corpo e, ainda assim, diante dos teus olhos assoma-se a figura que estremece o coração. E, em êxtase, ainda semeias carícias num terreno infértil. Cada palavra é um embalo no corpo entardecido. Um estado de graça. Um ressoar de memórias felizes. E a entrega é mais pura e singela. E sabes que vieste para ficar. Que a tua casa é um colo onde o cansaço vai perdendo firmeza. E, seguro, adormeces as têmporas grisalhas.  Não houve noite sem lua, nem madrugada sem orvalho sem um beijo a selar a intimidade.

Senso de poesia é amar até ao ponto final!

Liliana Mesquita Machado

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