DAR-TE UM SONHO

 

Vou dar-te um sonho a vida toda.

Cuida dele com a mesma cautela com que se cuidam as coisas findas. Coloca-o na palma da mão. Protege-o com um beijo a cada noite. Alimenta-o para que cresça. Vela-lhe a inquietação das viagens, que algumas magoam o ego. Poderá sair ferido, às vezes. Ensina-o a curar a ferida, mas diz-lhe que há feridas que nunca saram. Essas, devem ser limpas de quando em vez, para não infetar a coragem de voar alto, apesar da dor. Embala-lhe o sono. É preciso inspiração para se tornar grande. Mostra-lhe o caminho da liberdade, para que possa existir em pleno, sem as amarras da condição.

Nenhum sonho está condenado à nascença.

Poderá andar perdido. Exausto. Confuso. Que os teus olhos lhe guiem o sono. Sejam a bússola nos mares revoltos. Fá-lo acreditar na ousadia de existir. O sonho é alto. Tem um mundo estrelado a seus pés. Abraça-o por inteiro, para que te sinta a cada passo. Ama-o como um apaixonado em delírio. Sente-o como teu. Beija-lhe os lábios e desenha-lhe o rosto. É ele que possibilita o encontro. Nele tecemos as noites. E inventamos a nossa história. Tocamos a pele com os nós dos dedos. Coroamos de fogo a madrugada.

Guarda o sonho no teu colo.

Tu e ele são um só. Sonhei-te no dia em que te vi. E desde então que levito. Galgando as margens do mar noturno. Construo-te, palavra a palavra, antes de dormir. Percorro a lembrança dos teus olhos e preencho os espaços em branco com o teu sorriso. Aproximas-te de mansinho e entras no meu sono. Sem licença. Sem suposição. Trazes rosas para o encontro e dois copos na mão. Contigo entra a certeza de que vou perder-me de mim. E deito-me a teu lado.

Agora, amor…

Resta, apenas, sonhar juntos a vida toda!
 
Liliana Mesquita Machado

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