RECEITUÁRIO

 

Um dia conheci um sábio que não era velho.

Não sei se sabem, mas nem todos os velhos são sábios e nem todos os sábios são velhos. Não é a idade que traz sabedoria, mas a curiosidade com que olhamos para o mundo. Não é sobre o quanto vivemos. É sobre como vivemos. É sobre a grandeza do espírito para saber ler nas entrelinhas da vida. O sábio olhou-me para lá das janelas da alma e colocou nas minhas mãos um receituário. Um livro de muitas páginas, folhas gastas e velhas, vazias. Estavam em branco. Disse-me para encontrar um senso de propósito. Um significado na vida. Pois só assim, seria capaz de criar a minha própria receita da felicidade.

As páginas em branco ganham vida.

Estão gastas e velhas, mas já não estão vazias. Quando choro escrevo sobre a beleza do sorriso. As gargalhadas sonoras, os olhos rasgados e a expressão que se ilumina. Perante a perda escrevo sobre como aprendi a ganhar. Como um obstáculo se fez oportunidade. Como uma pedra se transformou no caminho. Perante a queda, com o rosto no chão, escrevo sobre como chegar ao céu. E sobre as asas que voam rasas no horizonte. Quando estou sozinha escrevo sobre a paz que o silêncio me oferece. E como, perante a minha solidão, descobri a minha essência. 

As páginas em branco enchem-se de luz.

Escrevo sobre a beleza da imperfeição quando me detenho nos detalhes. Sobre como escalar as paredes quando estamos no fundo do poço. Escrevo sobre o tempo e a espera. Sobre a virtude da paciência quando os sonhos se tornam miragem. Diante do abandono, escrevo sobre a jornada. E como cada pessoa fica o tempo necessário para cumprir um propósito. Diante do espelho, escrevo sobre a coragem. Sobre a força de levantar, seguir e aprender ao longo do caminho.

A receita é simples:

Sou mais do mundo, do que o mundo é meu!
 
Liliana Mesquita Machado

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