FIO DAS EMOÇÕES

 

Contigo aprendi a rir entre dois bocejos.

A dar asas à imaginação perante um discurso insosso com meia dúzia de palavras medíocres. A sonhar em tempos ásperos, nas tardes frias e negras, em que a luz triste, coada por vidros sujos, nega a afeição. A dar lume a fogueiras frouxas onde já nada arde com paixão. A ser exaltação diante de rostos com ar de enfado. A mostrar encantamento entre três gracejos descabidos. A viver no outro lado da moeda, num plano invertido, quando me é negada a alegria. A contrariar o ruído dos infelizes. A subtrair o medo até dar zero. A ousar ser muito além do que os olhos vislumbram.   

Contigo aprendi o amor entre dois laços.

Um longo fio à volta do corpo. Sem princípio. Sem fim. Sem rasto. A existir, por si só, e na força invisível do abraço. Das mãos que se cruzam no anonimato. Dos olhares que se fixam na multidão. Dos lábios que se extinguem no silêncio. Aprendi que o amor é um fio de espuma que nunca se separa do mar. Permanece, fiel, até à hora em que o sol, suavemente, tende a declinar. E, aí, então, os dois têm um oceano dentro de si. Foi contigo que aprendi a dar o nó à teoria das cordas, em que dois se unem num só verso. Em que dois se vinculam no infinito e se firmam ao luar.

Contigo aprendi a ler entre duas linhas.

A rimar entre dois beijos. A juntar as feições para compor o poema. A construir a narrativa entre o gume da ternura. A inventar, com palavras, o céu que me vem à boca. Porque és tu quem inspira a tinta, traz luz à página em branco e faz nascer a história.
 
Ah… como é bom ter alguém que nos escute os sonhos! 
 
Liliana Mesquita Machado

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