A VIAGEM ÉPICA

 

É épica a viagem, amor.

Embalam-se as tardes para que a demora não seja tanta e, às tantas, já nos perdemos no caminho das horas. Olhamos o horizonte estendido no verbo do passado e constatamos quão longo tem sido o percurso. E, nesse entretanto, quantas vezes rimos e choramos entrelaçados no pensamento dos dias leves. Dos dias em que os beijos eram promessas divinas. Em que as mãos se encostavam, levemente, ruborizando os rostos estremecidos pelo bater de asas. Em que os nossos olhos se cruzavam entre a multidão e o coração esboçava o sorriso dos tolos. Acreditando que o destino seguiria a nosso favor.

Mas é épica a viagem, amor.

Seguimos em contramão, equivocados do nosso destino. Cada um para lados opostos, sem temer que a distância fosse constante. Inconscientes de que as montanhas não se movem, nem os rios param. Arriscamos o todo. Conquistamos o vazio. Com as palavras a rebentar pelas costuras. E, agora, em vez de fazerem casa em teu peito, têm morada em parte incerta. Não foi para isso que nasci. Foi para te encontrar uma vez mais. Caminhar de mãos dadas. Lado a lado. Boca com boca. Pernoitar no teu colo. E, por fim, serenar o sonho.

É épica a viagem, amor.

Daquelas que se encontram nos romances com páginas que falam dos desencontros das almas. Quem a escreveu? Tu e eu. A cada passo, fomos desenhando as palavras da nossa história. Nunca a imaginamos assim. Pois a promessa do princípio não previa este fim. E, volta e meia, leio o livro do avesso, só para contrariar o rumo da nossa viagem. E volto aos passeios do entardecer. À inocência das borboletas. Aos carvalhos que testemunhavam a cumplicidade do olhar. Ao burburinho que ecoava no silêncio dos nossos corações.

 À saudade que se abate sobre a noite!

 Liliana Mesquita Machado

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