AMOR, É TARDE
Amor, é tarde.
E
já vai extensa esta vertigem.
Parece
que o tempo já foi outra vida, uma em que as nossas mãos entrelaçadas tinham
pele lisa como a dos pêssegos. Foi tão longe que recordo de ti apenas o sorriso
de criança, com luz imatura a sair da boca. Nem sei como será agora o tom da
tua palavra. Se o timbre treme, ainda, perante a minha presença. Se escondes o
olhar por entre as montanhas. Porque o que vejo, pela cortina dos meus olhos, é
o teu passo apressado na calçada. Ansioso. Urgente. Com a premência do encontro.
E, de novo, os sorrisos puros que rasgavam as maçãs do rosto.
Amor, é tarde.
E
já vai longa esta ausência.
Às
vezes penso se não te sonhei. Se não foste uma invenção da promessa. Se te
criei na aventura desmedida. Se existimos, de fato, naquele tempo em que os
amores nascem sem permissão. Se caminhamos lado a lado com a vontade de fazê-lo
até ao fim. E vens trazer-me à memória os beijos de lábios frescos como o orvalho.
Eram beijos furtivos. Roubados. A medo. Que emergiam na coragem do momento. E
eu deixava-te encher o peito. Bravo. Herói. Valente. E, de novo, os sorrisos a
brotar por dentro.
Amor, é tarde.
Invade-me
o desassossego da lembrança dos dias a tombar no esquecimento. Já não sei a cor
dos teus cabelos que, certamente, terão agora a tonalidade do tempo. E penso se
terão os teus braços ainda a forma do meu corpo. Se és a sentinela debaixo da
minha janela, a velar a ansiedade da manhã para iniciar uma nova viagem. De ida
e volta. Com as mãos a transpirar o sonho do gesto. Aquele que nos denuncia. E,
de novo, o sorriso a trazer palavras ao coração.
Amor, nunca é tarde…
Para
cumprirmos a promessa!
Liliana Mesquita Machado

Que beleza de poema!... Fez-me viajar no tempo. Beijinho, Liliana. Eduardo.
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