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LENTIDÃO

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O passo apressado marca a primavera da vida. Ah! Tudo a florir… na prontidão de quem se acha muito novo para amar e muito velho para aproveitar o sopro que é existir. O tacão marca o compasso na pedra quadrada, cinzenta e gasta. Já tantos passos apressados se ajeitaram naquele caminho, sempre com o mesmo ritmo, sem demora e sem fôlego. Como se o amanhã fosse uma meta tão distante que, na demora, não há tempo para sentar e apreciar a Primavera. Maria Inês gosta de sentar-se àquela mesa. A observar. A olho nu. Expia de olhos frenéticos um e outro par de pés que marcha sobre a calçada. Levanta os olhos só para dar rosto às bases. É como desenhar uma casa. O esboço de Maria Inês começa sempre pelo alicerce. A parte que sustenta o peso. E há pés que sustentam o mundo. Outros o inferno. Alguns escalam nuvens de algodão. E outros palmilham por aí, desnorteados como o tio Albertino em noites de alegria celestial. Maria Inês está ali, sentada à mesa, sorvendo o êxtase dos imbecis qu...

DOS DIAS EM QUE FUI FELIZ

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  A Sofia tem sempre o mesmo pensamento à hora dos deveres: “Ah… na casa da avó Milai é que se está bem”. Há sol no mês de agosto e tardes demoradas com amoras acabadas de colher, e uma orquestra de grilos que ecoa no jardim em dias abafados e poeirentos.   Mas sabem o que há de hilariante na casa da avó Milai? A Nina Rosadinha… De repente, para a Sofia, rosa passou a ser a cor da amizade. A Nina tem personalidade forte e é muito aventureira. A avó Milai tem uma horta com muitos legumes. Certo dia, de manhãzinha, a Sofia calçou as galochas e foi com ela pela mão para ver a horta a crescer.     A Nina Rosadinha, apanhada pela emoção, desatou a correr na sua direção e,   sem escape ou travão, esbarrou na Sofia atirando-a para o chão.    Encostou o focinho rosado ao rosto de Sofia e, num ronco gargalhado, rebolaram pelo chão, sem tino e sem demora, esmagando o tomatal. A avó Milai lançou um “Ai… valha-se-me Deus”, mas o caldo “de tomate”...

Purgatório este?

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  Na ponta do chicote da vida ora colocamos Deus, ora o diabo. No banco dos réus sentamos um e outro, prontos a julgamento como culpados das cicatrizes que a nossa alma encerra. Feridas abertas, marcas do nosso lamento, provas da nossa desgraça medíocre.     E no alto do nosso drama… Oh Deus que me abandonaste. Oh diabo que me tentaste.   Nós? Nós somos isentos de culpa. Puros anjos injustiçados pela ira divina: ou a do altíssimo ou a das profundezas. Nós não temos vontade. Somos marionetas movidas a dedos que, engenhosamente, articulam um e outro ato só com o propósito de nos conduzir ao mau fado.   E… num vasto universo, existe apenas o nosso ego a ecoar para lá das estrelas, num latejar de lamento profundo, a cobrar a Deus porque nos deve e a gritar para o útero da terra, aquele lamaçal de lava a borbulhar pelo nosso pecado, exigindo ao diabo culpas pela indução. Pois nunca a nossa alma foi curiosa por si só para se atracar a um bom pecado e tomar o gosto a...

A Maçã

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Sobre o pedaço que te falta…   Roubei-o com os lábios cansados pela espera da palavra madura. Nem era tempo de colheita. Mas, com as pontas dos dedos a salivar, colhi-te da árvore mais rica do pomar.   - Sê paciente! Há uma primavera imensa a prometer a cor dos frutos.   Mas que dizer? Que a gula foi mais valente e corajosa, e precipitou o meu desejo pela tua doçura suculenta. Soltei o meu delírio e percorri a tua face redonda, admirando a beleza da perfeição. Tentei a resistência por breves segundos, prolongando o estado de fogo em ebulição e da loucura a alastrar pelos cabelos.   Desinquietaste-me lá do alto do teu pedestal onde te encontravas. E da tua boca cintilavam as noites de verão a pedir refrescos de hortelã para acudir à minha sede. Desafiaste o meu sossego. E o meu pecado brotou das flores que as abelhas beijaram. Ainda trago vestígios de pólvora. Sou culpada pelo crime e tu pela cumplicidade. Roubei-te o pedaço que falta. Trago-o comigo na memória me...