FUI O QUE SOU
Sou um sonho de verão prometido. Levado ao teu sono em noites de inverno. E acordas com vontade de ser poeta. Mágico. Ilusionista. Só para enganar o tempo e fazer derreter o manto de neve que se estende na colina. Parar o escarcéu. Aplacar a tempestade. Sou a papoila que se deixa ao vento. Parada e em movimento. Com o caule a baloiçar, como quem ameaça fugir. Ainda assim, presa até à raiz, sem sair do lugar. Já despida. Sem a beleza do vestido encarnado. Arrancado pelo vendaval dos teus anseios. Desprendem-se as pétalas para se tornarem livres. E vejo, a uma distância sossegada, cada uma encapelar-se nas ondas do vento, sem rumo. Soltas. Sou o tempo e o espaço deixado ao acaso. Esquecido pela mão divina numa casa que me estranha. Que se entranha. Que se escapa. Que se perde à saída da porta do quarto para o corredor da vida. E aproveita o espaço para dançar a valsa. Abraçada a si mesma. E nos giros que o corpo dá, os olhos alcançam novos horizontes. E confiante. Do alto dos...