Mensagens

RECEITUÁRIO

Imagem
  Um dia conheci um sábio que não era velho. Não sei se sabem, mas nem todos os velhos são sábios e nem todos os sábios são velhos. Não é a idade que traz sabedoria, mas a curiosidade com que olhamos para o mundo. Não é sobre o quanto vivemos. É sobre como vivemos. É sobre a grandeza do espírito para saber ler nas entrelinhas da vida. O sábio olhou-me para lá das janelas da alma e colocou nas minhas mãos um receituário. Um livro de muitas páginas, folhas gastas e velhas, vazias. Estavam em branco. Disse-me para encontrar um senso de propósito. Um significado na vida. Pois só assim, seria capaz de criar a minha própria receita da felicidade. As páginas em branco ganham vida. Estão gastas e velhas, mas já não estão vazias. Quando choro escrevo sobre a beleza do sorriso. As gargalhadas sonoras, os olhos rasgados e a expressão que se ilumina. Perante a perda escrevo sobre como aprendi a ganhar. Como um obstáculo se fez oportunidade. Como uma pedra se transformou no caminho. P...

AQUELE FAROL

Imagem
Perdoa-me o espaço e o tempo. A imaturidade dos dias inseguros e a fragilidade do olhar que não alcança além da fronteira do medo. Sem isso, teríamos cumprido o propósito. As nossas mãos não se teriam largado. Não me fugias pela espuma das horas. E os nossos corações permaneceriam como um só. Eu não teria fugido à valsa prometida. Nem me refugiaria nos degraus da bancada onde teimavam os encontros de sorrisos rasgados e, claramente, apaixonados. Tão singelos como crianças que se encontram no recreio. Que respiram o mesmo aroma. Falam a mesma língua. E se eu tivesse, sequer, ouvido com o coração, não estaríamos tão longe. Perdoa-me a cobardia. A inexperiência das mãos e a falta de arte para o amor. E aquele farol teria sido a luz a guiar a nossa história. E as viagens teriam sido permanência. E caminhar lado a lado seria o rumo de quem se encontra nesta vida após muitas viagens. A esta distância entendo a riqueza da oportunidade. A vida colocou-nos tão cedo no caminho e eu deixei...

A RUÍNA DO TEMPLO

Imagem
(imagem:Yulia Gapeenko/Vecteeze) Nos dias impetuosos, corro. Na esperança de que me seja devolvida a dignidade nos atalhos seguintes. Tem dias que, no ventoso planalto e cortando o silêncio, ouço com nitidez o assobio da espada. Termina sempre a viagem cravando-se-me no peito. A lâmina, rude e fria, abre os gomos ao sonho. «Não te percas no caminho. Nem te demores no abismo. Segue, de cabeça erguida e coração forte.» Afinal, entre o sonho e a derrota, o que vai é um solavanco. E, com o mantra em mente, caminho no silêncio com orgulho da minha fraqueza. Nas noites escuras, choro. Em prantos, no meio dos planaltos. Mergulhada na imensidão da minha angústia. Perdida na extensão do vazio. O eco devolve-me o soluço em forma de silêncio. A ruína, porém, é de uma beleza incomparável. Com um nobre e imponente traço, parece perdida entre a planície e o céu. E dá um tom poético ao infortúnio. Uma graça irónica ao destino lamentado. Mesmo derrotada e perfurada no peito, traz-me conforto o ...

O SEGREDO

Imagem
  Ninguém nos ensinou a amar. Invade uma abundância de bem-querer. Entra pelas portas da alma um desejo de entrelaçar as mãos. Corre nas veias uma ternura efervescente. E ninguém sabe como ou quando. É uma chapada invisível a deixar marcas na pele. É súbito o arrebatamento. Tão inesperado que nos rouba o chão e a visão. Sem regra, nem pudor. Sem fórmula, sem rigor. Não pede licença, nem se faz favor. Abraça-nos por inteiro, com fogo no coração. Alastra ao beijo e estende-se na boca. Passeia-se pelas mãos com a intimidade dos poentes. E o sonho nasce em plena luz do dia.     Amar é um segredo bem guardado. Entre quatro paredes blindado, nunca me fora contado. E, entre o espanto e o terror, estremeço diante do fulgor dos teus olhos. E agora tenho medo da partida e da ausência. Estás em todo lado, a toda a hora. És pensamento e palavra. Vontade e desejo. E perdi o rasto à minha liberdade desde que tomei a temperatura à tua pele. Desde então, és tu quem dá prumo aos...

A PARTÍCULA DA TERNURA

Imagem
  Ruim é fingir que dói a vida toda. Arrastando-se na pobreza de uma vida desgraçada, cobrindo de véu escuro o coração. A vida é sacana, mas não alastra a dor pelo esqueleto do tempo. Não é tear a compor de angústia a teia e a trama dos sonhos. A dor é passageira. Tão fugaz como uma estrela cadente. Tão veloz como o voo das andorinhas. Tão breve quanto a nesga de luz que afasta as nuvens. Então confia. Na força das águas que te arrastam, no poder do vento que te empurra e na luz do sol que te ilumina. Ruim é fingir que dói a vida toda. Não dói a saudade, nem a tristeza, tão pouco o amor. Porque não há fim que não possa ser serenado. A saudade é a felicidade impressa na memória. A tristeza é a alavanca dos sorrisos. O amor não devolvido é uma porta aberta para um amor verdadeiro. Toda a dor tem um reverso. Inclina os teus olhos para as estrelas. Abraça a bravura que trazes ao peito. Agarra-te ao fio de luz que brota do teu coração. A vida é como uma gota de orvalho: tão fr...