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PRESÉPIO

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A noite fechava-se. No céu e no meu coração. Aquele manto negro estendia-se para lá do horizonte dos meus olhos que, surpresos, ameaçavam a tempestade em noite de aviso laranja. Não havia vestígio de luxo ou sementes de ouro a embelezar as mobílias de uma casa vazia. Sem portas. Sem cortinas. Um espaço vazio. Como de resto ficaram as minhas veias. Vazias de vida a correr. O cão latia à entrada com fôlego de um guardião. A porta chiava ao sabor do vento gélido. Sentia cada gemido nos meus ossos. Foi um estalo a seco para a minha vaidade sem propósito. A baixa luz, que surgia de um dos espaços da casa, roubava a minha atenção. Escondiam-se, por entre os cobertores, pequenas sentinelas douradas. Eram duas estrelas atrevidas a desafiar a minha ignorância para o verdadeiro significado de felicidade. A casa era pobre, sem recheio. Mas todo o espaço estava ocupado por tamanho amor. Não havia árvore de Natal. Nem embrulhos ou luzes de muitas cores a tremular alternadamente. Entendi, no m...

DÁDIVAS INESPERADAS

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  Sabes o que são pérolas da alma? Aquela gargalhada genuína que faz vibrar as paredes do nosso templo interior. Expande o músculo até ao universo. Amassa a tristeza até torná-la macia. Faz de nós seres mais gratos pelo que somos… pelo que temos. As dádivas inesperadas são graças da vida. Aceita-as de peito aberto. Vive-as e permite-te ser digno delas. São alimento para a alma e para o coração. São mais apreciadas por pessoas simples. Que valorizam os gestos e não as aparências. Que se dão por inteiro sem exigir o retorno. Não se confunde este tipo de gente com o avarento que faz eco do pouco que dá, entre o muito que tem. Que reproduz em sonoridade a sua mão estendida, para receber elogios. Esse precisa ser notado e é surdo às dádivas inesperadas. A simplicidade traz o desfecho feliz nos caminhos mais íngremes, a harmonia nas agruras mais ásperas e a confiança no altruísmo para uma vida mais feliz. Abranda o ritmo. Colhe a luz do sol. Prova o aroma da terra. Sente o pa...

Os Sapatos Vermelhos

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Aninhada, pois, na minha convicção, calcei os sapatos vermelhos para descascar as batatas para a sopa. A minha mãe diria que não aprendi nada. Contrariei a minha vontade pela pantufa e decidi dar uma oportunidade à “sensualona” escondida pelas camadas de pele. Se é confortável? Não. Nem o sapato, nem a personagem que evoco das entranhas. O salto torna-me mais alta que a bancada. Obriga-me a vergar as costas para que os olhos, melindrados pela miopia, possa avistar aquela nesga de casca teimosa.   Resisto. Persisto. Sinto-me a “tal” para as paredes da minha casa. As únicas testemunhas deste desvario. O fogão lança-me um esgar de fogo. Já atiçado pela minha sensualidade doméstica. Eu disfarço. Não é de bom tom colocar a panela ao fogo logo no primeiro olhar. Ele entra no jogo. Apaga-se por breve segundos. Como se o que vê não fosse gás suficiente para as suas bocas. Fingido! E sinto-me poderosa. Afinal, um salto faz toda a diferença. Até as batatas se descascam com ou...

PROPÓSITO

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  Os propósitos.   São as intenções que colocamos para a vida. Todos achamos que cada um de nós nasce com um. Que, juntamente com o primeiro sopro; o primeiro choro; o primeiro desvendar da retina, trazemos um propósito a acompanhar a alma. Eu teria uns cinco ou seis anos quando ouvi, pela primeira vez, falar de propósito. Recordo as rodas de madeira, o chão de pedra e a roca de fiar e, ao mesmo ritmo, a minha bisavó desfiava palavras sobre o seu propósito como uma tarefa a cumprir. Era uma tarefa do coração. Um destino a cumprir. Um objetivo de vida, sei-o agora, muito anos depois. A minha bisavó era uma mulher de estatura baixa, com um rosto marcado pela vida. A estatura não fazia jus à sua alma e ao seu coração. Viúva com vinte e poucos anos e um filho, o meu avô. Patrocinou-lhe uma vida honrada e permaneceu ali, como uma sentinela a zelar pela felicidade. - Minha filha, onde estiverem os teus sorrisos, constrói a tua casa. - disse-me, atirando ao fogo um tronco lar...

UMA GOTA D'ÁGUA

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    Já não sei se sou gente ou se sou água. Um corpo líquido a fugir-me pelos dedos. Que escorre em lembranças. Que flui com as memórias, tão belas e ornamentais. Que, de tão geniais, se agigantam. Algumas são lugares comuns e tão reais, outras distantes e baças. Serei água em corpo de gente? Que se esgota com a sede, que se retém com a chuva? Que se apaga e se transforma com o fogo? Tenho pernas como um rio que se expande até às margens. Tenho o mar nos meus cabelos, em horas tumultuosas. Trago a chuva nos meus braços que se evapora sobre a montanha. Os meus olhos são gotas de orvalho a pousar nas tuas pétalas. Tão puras e transparentes que se lê o coração. Trago o amanhecer no meu regaço, pronta a dar vida a um novo dia, a fazer florir novos campos e a abastecer os mananciais. Cada lágrima é uma gota que se infiltra e flui pelo solo, alimentando as nascentes. Em dias de tempestade escoam sobre a superfície como torrentes, motivando as enxurradas. Arrastam agitações a...

A GENTILEZA DE UM SORRISO

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Dos dias em que tudo é ausência. Que o frio tem nome de inverno e a alma se afunda na lama. Em que os teus, aqueles que carregas no coração, têm cara feia e palavras sem sol. E, urdidos na tua permanente gentileza, ousam atropelar-te com pensamento nu, despido de qualquer afeição. Dos dias em que o abraço faz falta. Que a paisagem tem feição de ruína e o peito é um deserto de mãos vazias. Em que toda a palavra te quebra e enfraquece, e o cansaço surpreende ao virar da esquina. Enterras o desânimo entre as colinas do teu pescoço. Faz-te sombra a solidão. Carregas o que te dói a cada passo. Calada. Silente. Sem um “ai”. Desejando que o instante seja veloz. Que um novo dia traga outro jardim. Que a pedra não seja um sapato. Que a sorte não seja um acaso. Dos dias em que a noite é longa. Confundem-te as vozes do silêncio. Estranha-te o sonho da felicidade. Aterroriza-te o fantasma da esperança. Umedece a palavra em oração. Porque é lenta esta empreitada e muito curta a ins...